
A Encarnação na China
Cícero
Psicografia:Neuza Nóbrega Garcia
A Grande Muralha
Acabara de deixar um mundo novo onde as almas lutavam pelo progresso
implantando amor e paz nos corações. Seguia agora para um outro extremo da
Terra, o berço das civilizações mais remotas, onde por séculos, perduraram
lendas e mistérios, alimentando costumes e tradições.Com a rapidez do pensamento
cheguei ao meu destino. Diante de minha visão se descortinava a Grande Muralha
da China a se estender por quilômetros e quilômetros.
Durante anos e anos, sob sol e chuva, calor ou frio, centenas de
homens trabalharam para erguer aquele monumento que se tornou conhecido e
admirado pelo mundo inteiro.
Ela nos fala de um povo paciente e perseverante, que diante dos
ataques inimigos, ergueram uma fortaleza como proteção do solo que amavam.
Agora já
podia toca-la. Sentir o cansaço, temor, tristeza, alegria, esperança,
impregnados nas sucessivas camadas de terra, tijolo, pedra, cal, emanadas
daqueles que deram seu suor e até a vida, na sua construção, assinalando as
diversas fases da evolução chinesa.
Por quanto tempo me senti seu prisioneiro?
Agora, no entanto, eu podia me dirigir a ela e dizer, sem temor, o que sentia:
“Estou, mais uma vez, diante de ti. Não poderás mais barrar meus passos, pois
hoje sou um Espírito livre, quite com as Leis de Deus. Não existe mais o antigo
guerreiro nem o humilde lavrador. O sofrimento, o trabalho e a renovação me
redimiram diante do Senhor”. De país em país, de encarnação em encarnação, fui
me renovando, e hoje, vejo a vida com outra visão.
O trabalho, como um agente do progresso.
O dever, como compromisso sublime.
A liberdade, como uma conquista pelo conhecimento da verdade.
A paz, a consciência tranqüila, na vivência em harmonia com a lei
divina.
O amor, que julgava ser um coração batendo de encontro ao meu, agora o
sinto ao estender a mão a um mendigo ou quando olho para meu próximo e o vejo
como um irmão.
Foi um longo e doloroso aprendizado, que me ajudou a vencer o orgulho,
vaidade, ambição e egoísmo.
Hoje posso caminhar tranqüilo, pois tenho Jesus para guiar-me os passos.”
Sem olhar para trás, me afastei da grande muralha e segui em direção ao
campo onde vivi um dia.
A Encarnação na China
A partir do momento em que pisei o solo que
vivera um dia, o passado foi ressurgindo em todas as suas minudências. As casas
humildes de grandes tijolos de barro formavam o povoado onde vivia uma dezena de
lavradores.
O inverno chegara.
A escuridão da noite descera sobre a aldeia. Um vento forte soprava
balançando os galhos secos das árvores e penetrando nas casas, através das
gretas existentes nas portas e janelas. Em uma das moradas, sob uma velha arca,
a luz mortiça de uma vela iluminava um leito, onde uma jovem chinesa se
contorcia com as fortes dores do parto. Num cômodo próximo, o companheiro
permanecia atento, em grande expectativa, ante o nascimento do seu primeiro
filho. Tinha ímpetos de romper as paredes quebrando a barreira que ela lhe
impusera, no desejo de permanecer sozinha, ocultando sua dor.
O vento aquietara, e o silencio tornara-se pesado, aumentando sua
inquietação. Não mais se contendo, colocou o ouvido junto à porta na esperança
de ouvir algo que lhe dissesse o que estava ocorrendo. Alguns minutos se
passaram até que um débil gemido, acompanhado pelo choro de criança, chegou até
ele. Suas pernas vergaram sob forte emoção e ali ficou sem qualquer movimento
até que, não resistindo mais a longa espera, abriu a porta, rompendo quarto
adentro. Lá estava ela deitada no leito com um pequenino ao lado.Sem qualquer
palavra, olha-a, interrogativo. Estendendo-lhe o recém-nascido, ela exclama com
orgulho: ”Toma nosso filho! É um menino! Lindo e forte, capaz de causar inveja
aos deuses!”
Assustado com as palavras imprevidentes da companheira, temeroso de que
algum espírito maligno ali estivesse ou mesmo um deus invejoso a ouvisse, o
devolve a mulher, falando-lhe com severidade para que ela compreendesse a
imprudência que cometera: ”És mesmo uma tonta por elogiar uma criança feia e
frágil, que por certo, deus algum invejaria”.
Ela compreendendo o temor do marido toma o filho nos braços ofertando-lhe
o seio onde o leite farto brotava. Ele o sorve com sofreguidão, enquanto o pai,
disfarçadamente, o fita embevecido a pensar: “Aí está meu filho, belo e forte
para me ajudar no cultivo da terra e me amparar em minha velhice. Depois dele
virão seus filhos que continuarão o que meus ancestrais iniciaram e teremos
sempre descendentes perpetuando nossa geração. A terra será sempre nossa, nunca
deixará de produzir o alimento para nosso sustento e das gerações vindouras,
pois saberemos amá-la e respeitá-la.”
Os primeiros alvores da madrugada surgiam quando ele deixou o quarto com a
luz da esperança aquecendo seu coração. Chegando ao alpendre, olha os campos
verdejantes e se dirigindo a sua amada terra, fala-lhe com o coração: “Agora
estou tranqüilo, pois uma parte de mim continuará te cultivando e quando a
morte enregelar meu corpo, meu filho o depositará em teu seio e me transformarei
em uma parte de ti ao transmutar-me em pó”.
Foi assim que reencarnei no corpo humilde de um chinês.
Sonho e Realidade
O tempo na aldeia transcorria lentamente com os dias sempre iguais.
A rotina somente era alterada quando eu acompanhava meu pai a cidade.
Enquanto ele se ocupava na venda dos cereais ou na compra de algum
utensílio que necessitávamos, eu andava pelas ruas a vagar por algum tempo até
que meus pés, automaticamente, me conduziam para junto da grande muralha.
Ela me atraia fazendo-me sentir como o pássaro diante da serpente,
desejando fugir, mas sem conseguir se locomover preso ao seu magnetismo.
Aqueles muros me fascinavam e horrorizavam ao mesmo tempo.
Em minha imaginação comparava a muralha a um dragão a estender suas
garras tentando aprisionar-me. Ficava parado a contempla-la até que, um torpor me
tomava o corpo e ficava sem noção do que ocorria ao meu redor.
Tomado por verdadeira alucinação eu me via com enorme espada a lutar
ferozmente. As espadas brandiam no ar e o barulho que faziam se misturava aos
gemidos dos homens que tombavam mortalmente feridos. Indiferente, eu passava sob
os corpos estendidos no chão e a vista do sangue derramado, me fortalecia e
prosseguia na luta até que uma grande barreira surgia a minha frente,
tolhendo-me os passos. Despertava então, daquele pesadelo, mas continuava a ver o
sangue a jorrar e infiltrar na terra tornando-a de um vermelho vivo.Sem forças
para me locomover, ficava ali, parado, até que meu pai me encontrava e eu o
seguia em silêncio. Sentia ímpetos de contar-lhe o que me acontecia, mas temendo
que ele não encontrasse explicação para o fato e julgasse que eu havia perdido o
juízo, silenciava, guardando para mim as estranhas visões que me assaltavam.
Com o correr do tempo novas preocupações tomaram conta de meus
dias. Notava que meu pai não possuía mais o mesmo vigor de outrora.O destino
negara-lhe outro filho varão e eu me tornara no único bastão em que ele se
apoiava.
Aprendera a venerá-lo e saberia honrá-lo amparando-o, até seus
últimos de vida. Quando ele me apresentou a mulher que escolhera para minha
companheira eu permaneci calado. Não tive coragem de lhe falar sobre a imagem de
mulher que povoava minhas noites com sonhos de amor e de ventura.
O sonho se repetia sempre.
Um alto muro se erguia a minha frente, mas eu o transpunha de um
salto, atraído pela voz que se elevava suavemente numa canção de amor.
Percorria alamedas sombrias e desertas, chegando a um formoso jardim com um
caramanchão ao fundo onde eu divisava sob a penumbra, a figura de uma mulher.
Ao ver-me, ela se erguia e com seus passos ligeiros, se atirava em
meus braços. Sua boca vermelha e pequenina se abria num sorriso de
felicidade. Seus olhos amendoados brilhavam, ao fitar-me com amor. Seus cabelos
pretos e sedosos, presos por dois crisântemos, se soltavam, ao meu toque, espalhando-se pelos
ombros. Esquecidos do perigo que nos ameaçava, entregávamos
ao nosso imenso amor.
O raiar do dia me despertava e eu voltava a minha triste
realidade. Olhava minhas mãos grossas e calejadas, meu corpo bruto e
rústico, a vestimenta grosseira jogada aos pés da cama.
Em meu sonho me vira belo, de mãos finas e delicadas. Minha túnica
era de seda bordada a ouro. Quem eu era afinal?
E a bela jovem que me inspirava tanto amor?
Talvez ela fizesse parte dos devaneios de meu espírito quando
buscava a imensidão dos céus,
Mas um novo dia começava e a terra me chamava.
Procurei esquecer meu sonho e me casei com aquela que me fora
destinada.
Um sonho que se concretiza
Com meu casamento meu amor pela terra cresceu.
O corpo agora tinha todas as suas necessidades satisfeitas e trabalhava com
ardor. A terra parecia compreender-me, retribuindo minha dedicação. Dava gosto
ver o campo sempre verdejante e os celeiros cheios. As moedas de prata que
recebia com a venda dos cereais, começavam a se amontoar
no esconderijo que arranjara para guardá-las.
A mulher que me fora destinada para companheira era dócil e
trabalhadora. Quando eu acordava ela já estava de pé, pronta para servir-me o
chá, se dividindo entre o serviço caseiro e a plantação. Os filhos chegavam
anualmente, enchendo a casa de alegria. Meu velho pai descansava tranqüilo, ao
lado dos netos, usufruindo o premio a que fizera jus por seu labor de tantos
anos.
Uma ambição crescera dentro de mim com a chegada dos filhos:
adquirir tanta terra quanto me fosse possível cultivar, para que os filhos,
ajudando-me, mantivessem as mãos e a mente ocupadas, para que o ócio não lhes
abrisse as portas para os vícios que levam as horas vazias.
A cada pedaço de terra que adquiria pegava meu velho pai pela mão e
o levava a percorrê-la, tal qual ele fizera comigo quando criança. Ele a olhava
orgulhoso e eu via brilhar em seus olhos, o amor que a terra sempre lhe
inspirara. Apertava fortemente a minha mão e deixando que eu o conduzisse, a
sorrir, abanava a cabeça expressando sua aprovação. Eu podia ouvir seu
pensamento: cumpri minha missão, pois consegui transmitir a meu filho o amor e o
respeito aquela, que é nossa segunda mãe.
Voltávamos felizes para casa como se fossemos uma só alma.
Os anos corriam tranqüilos.Os meninos cresciam e meu pai passava os
dias a cochilar sob o calor do sol.Uma tarde, ele pegou-me a mão, e se
arrastando, me levou até o local onde estava enterrado o corpo de minha mãe.
Abaixou-se com dificuldade, e pegando um punhado de terra, jogou-a pelo corpo
enquanto erguia, para o céu, os olhos cheios de gratidão. Mais uma vez eu o
compreendi sem que ele precisasse usar da palavra.
Silenciosos, voltamos para casa.
Alguns dias transcorreram e fiz novamente o mesmo trajeto, mas dessa
vez, carregando seu corpo frio para enterra-lo no local que me indicara. Meus
olhos permaneceram secos enquanto o depositava no regaço da sua querida terra
como um filho que volta para o seio da mãe. Ela fechou-se suavemente sobre ele
como se o aconchegasse em seus braços para que adormecesse tranqüilo.
Com a morte de meu pai criou-se um vazio dentro de mim. Corpo e
espírito se digladiavam novamente, cada um reclamando suas necessidades. A terra
me retribuía fartamente o amor que lhe dedicara, mas o céu me atraia novamente,
ressurgindo os velhos sonhos.
Vagava pelas ruas da cidade, na expectativa de que, ao dobrar uma
esquina, surgisse algo para encher o vazio de minha alma.
Uma noite, como num sonho, eu a vi! Como era linda! Uma beleza suave
e delicada, olhos amendoados, boca pequenina num rosto pálido que os cabelos
negros emolduravam. Aquela imagem estava gravada dentro de mim e agora eu a
encontrava! Sim, era ela! A mulher que acalentara meus sonhos nas longas noites
de inverno. Mas, por que somente agora, quando os cabelos brancos surgiam a
lembrar-me que a juventude se fora, ela surgira? Não seria tarde de
mais? Poderia os sonhos, renascerem das cinzas e aquecer-me os dias com o calor
das ilusões, tornando o outono em primavera?
Uma batalha se travava dentro de mim
mas eu não podia deixar que outros
homens a tocassem. Possuía muitas moedas de prata e poderia comprá-la... E assim
o fiz.
Um Raio de
Sol
Junto ao pátio do lado sul, construí novas dependências para abrigar aquela que
transformara meus sonhos em realidade.
Até aquele momento eu fora tal qual um peregrino, sempre a procura de um lugar
em que pudesse repousar, aquietando os anseios do coração.
Agora ao lado da mulher amada, meu espírito se aquietara como se
tivesse encontrado sua outra parte que lhe fora arrebatada no correr dos
séculos. A felicidade, porém, me tornara egoísta. Somente via e vivia para
aquela que me arrebatara para o céu. Não parava para pensar com que direito o
homem busca outra companheira para alimentar-lhe os sonhos e fantasias com a
mesma naturalidade que adquiria um pedaço de terra. Nem uma vez, sequer, pensei
naquela que cumpriu fielmente seus deveres curvando-se diariamente sob o
trabalho exaustivo, colocando filhos no mundo, submissa e resignada. Se possuía
sentimentos, se me amava e sofria com meus atos. Eu só pensava no tempo que
corria veloz desejando pará-lo para que os momentos felizes se prolongassem
eternamente. Meu corpo e espírito estavam tranqüilos. Durante o dia a terra era
minha companheira a quem me dedicava no seu cultivo e a noite meus sonhos se
concretizavam ao lado da mulher amada.
Eu perdera a noção do tempo. Os filhos iam se tornando homens, a companheira
envelhecera sem que eu visse as rugas profundas marcando-lhe o rosto pelas
lagrimas derramadas no silêncio das noites vazias.
Mas a dor despertou-me um dia.
Com a alvorada de uma manhã de primavera minha doce amada cerrou os olhos para
a vida. Apertei-a em meus braços tentando aquecê-la com meu calor. Sussurrei-lhe
palavras de amor na esperança de que ouvindo o apelo do meu coração desesperado
ela voltasse da morte, mas seus olhos continuaram fechados e seu corpo frio. Do
meu peito, então, ecoou o grito de uma alma apaixonada que não conseguia
suportar a sua dor: “Por que os deuses a levaram? Eles a tinham feito escrava e
agora, que eu a libertara, invejosos de nossa felicidade se vingavam tirando-a
dos meus braços”. Durante horas chorei e blasfemei até que a me voltou à
lucidez.O sol já se punha no poente e eu precisava agir. Ela não era da terra
como meu pai, o céu era sua morada. Escolhi um lugar onde se avistava o céu e
onde flores silvestres brotavam alegres e coloridas. Com alguns tijolos e argila
ergui uma lápide, forrei com folhas perfumadas e aí depositei seu corpo,
cobrindo-o com uma braçada de flores para que sua alma, quando se desprendesse e
voltasse para as paragens do infinito de onde saíra, para atender aos apelos do
meu coração, guardasse a lembrança do nosso amor.
Durante muitos dias permaneci sentado à soleira da porta a contemplar o céu,
na esperança de vê-la surgir por entre as nuvens. Às vezes me perguntava se tudo
não passara de um sonho, os mesmos que me acalentavam outrora, mas ali, em nosso
cantinho, estavam seus objetos pessoais, atestando-me que tudo fora real. Agora
eu teria que viver apenas de lembranças...
O tempo passava, mas em meu coração a dor da saudade não se apagava. Buscava no
trabalho árduo o esquecimento, sem no entanto, conseguir apagar a lembrança
daquela que me alegrara a existência.
Meus filhos iam construindo família, e eu, como fizera meu pai, ia
passando-lhes a terra para que a fizessem produzir, mas para eles ela era apenas
um meio de sustento para sobreviverem. Eu não conseguira transmitir-lhes o mesmo
amor que agasalhara meu coração e o de meu pai.
A família foi aumentando com a chegada dos netos, mas eu perdera o interesse
por tudo. O inverno dos anos chegara e eu me sentia muito só. Não mais me
aproximara da companheira, pois a sombra da outra permanecia entre nós. Com os
filhos nunca houvera a mesma ligação que me unia a meu pai. Passava os dias a
cochilar pelos cantos sonhando com o passado. Foi, então, que mais uma neta
nasceu, formosa como uma flor de lótus. Seus olhinhos amendoados buscavam-me
onde eu estivesse e sorria ao me ver. Dei-lhe o nome de Sue Lin. Ela
despertou-me novamente para a vida. Foi como um raio de sol aquecendo minha
velhice. Quanto mais ela crescia mais nos amávamos.Com seus passinhos ligeiros
buscava-me para que a levasse a passear nos campos. Com exclamações de alegria
saudava as flores que iam desabrochando. Ao entardecer sentávamos no alpendre e,
enquanto o sol se despedia, eu contava-lhe histórias que falavam de deuses e
dragões.
Algumas vezes eu silenciava, recordando o passado, e ela, como se adivinhasse
meus pensamentos, me acariciava a fronte como se quisesse apagá-los de minha
memória. Outras vezes, era ela que se tornava tristonha e me cobria de
perguntas:“Vovô, porque os deuses são maus e invejosos? Eles não deveriam ser
bons e nos proteger? Por que para atenderem nossos pedidos temos que lhes dar
oferendas? Como podem permitir que as mulheres se tornem escravas?”
Enlaçando-me o pescoço , a soluçar, prosseguia numa súplica: ”Vovô, não deixe
que eles me tornem escrava! Eu quero ser livre como os passarinhos! Eu odeio os
homens e os deuses!”. Uma dor profunda me apertava o coração. Por que tanta
amargura e revolta no coração de uma criança?! Tomado por tristes
pressentimentos, eu a apertava fortemente em meus braços. Desejava
tranqüiliza-la, mas sentia–me velho e fraco, impotente diante dos homens e dos
deuses.
Meus dias agora eram tranqüilos.
Vivia o crepúsculo da vida quando a serenidade se impõe, após a inquietude da
juventude e o ardor da maturidade. Meu corpo, enfraquecido pelos anos, quase
nada mais exigia para se manter vivo. Logo a terra o receberia em seu seio tal
qual a semente atirada à cova escura.
Meu espírito já se impunha sobre a carne, que não possuía mais forças
para prendê-lo. Sentia que breve estaria completamente livre. O que me mantinha
ainda preso a Terra era o amor pela pequena Sue Lin. Sentia que nossos destinos
estavam entrelaçados como almas que caminham juntas pela longa estrada da
eternidade.
Mas a vida, como a natureza, às vezes nos reserva surpresas.
Como uma bela manhã não prediz o temporal que desabará a tarde,
assim também, uma vida calma não faz supor que o infortúnio desça sobre nós.
Os tempos de prosperidade nos cegaram. Não imaginávamos que a terra
amiga, que sempre nos sustentara, fosse transformar-se pela seca, num chão árido
em que os torrões se formavam, impedindo que a semente brotasse. A pequena
aldeia, antes tão verdejante, transformara-se num campo de desolação.Os celeiros
começaram a se esvaziar. Tornamo-nos egoístas, guardando, avaramente, o que
possuíamos. Sabíamos que nada brotaria naquele solo enquanto a chuva não viesse
e molhasse o solo muitas vezes para que ele se tornasse novamente verde, como a
esperança, que fugira de nossos corações. Desesperados, apelávamos para os deuses
sem que nossas súplicas fossem ouvidas.Voltávamos nossos olhos para o céu em
busca de nuvens, mas ele continuava azul e sereno. Muitos começaram a partir
para as cidades na tentativa de encontrar trabalho.Na aldeia ficaram apenas
velhos e crianças. Eu jamais pensaria em abandonar minha terra. Morreria naquele
solo que me vira nascer e onde seria sepultado junto de meus ancestrais.
Aquela manhã o desespero invadiu-me a alma. Não havia mais um grão
sequer de alimento para nos enganar o estomago. As crianças, famintas, não mais
se moviam pela casa. Calavam-se tristonhas, quietas
pelos cantos, pressentindo que a morte se aproximava. Fitei Sue Lin. Seus olhinhos, outrora brilhantes e doces, agora, embaçados,
refletiam o desespero da fome. Sua boquinha não mais sorria, permanecia cerrada
num rito de amargura. Seus bracinhos pendiam inertes, junto ao corpo magro, onde
os ossos se destacavam. Aproximei-me tomando-a nos braços. Ela permaneceu
silenciosa, apenas seus olhos pareciam dizer-me: ”Mata a fome que me devora as
entranhas. Vês? Não tenho mais forças para correr ou brincar. Tem pena de
mim!”. Uma revolta surda cresceu dentro de mim. Mais uma vez desafiei os deuses
que deixavam crianças inocentes morrerem de fome. Bradei contra a terra que se
negara a nos alimentar. Não sabia mais a quem acusar. Uma idéia, então, começou
a surgir dentro de mim.Teria que agir rapidamente antes que fosse tarde de mais
e, de mãos dadas com a pequena Sue Lin, seguimos pela longa estrada que nos conduziria a
cidade.
O destino, que eu cortara um dia, talvez , tivesse que ser cumprido.
Enquanto caminhava de volta a casa, meu corpo se curvava sob o peso de
minha consciência.
Diante de minha visão a figura de Sue Lin, pequenina e frágil, a fitar-me como
uma acusação ao ato que praticara.
Por mais mais que procurasse uma atenuante por livrá-la da morte pela fome, ao
vende-la como escrava, minha consciência, desperta, me acusava sem cessar: "O
que será feito dela, pobre criança, nas mãos de pessoas estranhas, sem carinho e
proteção? Não seria preferível a morte a escravidão?"
Eu tentava me defender, mas ela continuava implacável:"O que leva o homem a
supor que a mulher nasce predestinada a ser por ele subjugada? As almas não se
diferenciam pelo sexo, mas pelo grau de elevação.
Não se deve aceitar passivamente a escravidão da mulher nem de ser algum. Há
tradições que precisam ser extintas. A proporção que teu corpo se enfraquece tua
percepção da vida vai se modificando.É teu espírito que
começa a romper a barreira da carne no desejo de brilhar como uma luz para
iluminar teus dias.
Já existe dentro de ti a intuição de que uma força poderosa rege céus e terra
influenciando o destino
dos homens. Essa força não provém dos ídolos de barro a quem aprendeste a ver
como deuses e se curvar
temeroso diante deles."
"Não tentes, pois, tentar me calar, mas nas horas do entardecer permanece em
meditação e poderás me ouvir.
Eu sou a tua consciência ligada a ti desde o momento em que foste criado para
ajudar-te a crescer e me
erguerei sempre que praticares atos que possam me ferir."
Os dias agora passavam lentamente.
A chuva caiu finalmente, molhando a terra. Os campos tornaram-se verdes
novamente, trazendo de volta
homens e mulheres. Ninguém se importou com a falta de Sue Lin. Era uma boca a
menos para ser
alimentada. Eu, no entanto, não a esquecia, alimentando a esperança de
resgatá-la, livrando-a da
escravidão. A fraqueza, porém, invadia-me o corpo e as forças se esvaiam
rapidamente impedindo-me
de deixar o leito.Sozinho com meus pensamentos, procurava ouvir a voz que me
falara um dia para lhe
perguntar:" Serei julgado um dia por um tribunal? Será que o sofrimento que me
acabrunha os dias
não será maior que qualquer castigo que me seja imposto?" Mas a voz
jamais respondeu as minha indagações.
Meus dias na Terra chegavam ao fim.
Até o último momento alimentei a esperança de que um milagre acontecesse e eu
pudesse vê-la
para pedir-lhe perdão, suplicando que apagasse do coração o ódio aos homens
e aos
deuses. Mostrar-lhe que os homens ainda não haviam amadurecido, por isso
oprimiam as mulheres.
Um dia a Terra conheceria um Deus justo e bondoso, que enviaria alguém para nos
consolar e
proteger, libertando a mulher e elevando-a, através do amor.
Com esse pensamento entreguei meu corpo a terra sem ter o consolo de ver e falar
a minha pequenina Sue Lin.
Uma
figura de mulher
Ao rememorar o passado senti o coração dorido ao ver, por quantos
séculos, a mulher ser considerada inferior, escravizada, brutalizada, usada
como um objeto.
Com a vinda do Cristo, finalmente, foi dignificada através da figura
sacrossanta de Maria, que ao receber Jesus em seus braços, tornou-se a mãe amada
e respeitada de todos os sofredores.
Vejo-te, Rosa Mística, em teu dia glorioso.
Um sorriso de
felicidade, iluminava tua face ao fitar amorosamente, Jesus pequenino, a repousar tranqüilo, na
humilde manjedoura.
Tento imaginar a dor que te rasgou o peito ao segui-lo até o calvário. Ver as mãos impiedosas que, cruelmente,
O pregaram na cruz. Assistias a tudo em silêncio. Sufocaste o desejo de
estreitá-lo em
seus braços e cerrar-lhe os olhos no último suspiro. Apesar do sofrimento, de teus
olhos as lagrimas do desespero não desceram, continuaste fitando-o sem acusar,
sem se revoltar. Apenas murmuravas baixinho, sem que ninguém te ouvisse:
”Por
quê? Por quê?”
Senhora, mãe querida! Quisera curvar-me diante de ti e beijar-te os
pés suplicando perdão pelas inúmeras vezes que te ofendi ao magoar ou ferir uma
mulher.
Mãe Santíssima! Dá-nos consciência do dever que nos compete diante daquelas que
nos trouxeram em seu ventre e nos agasalharam em seu seio como filhos, dando-nos
a oportunidade de evoluir.
Ensina-nos a amar e respeitar as companheiras que compartilham de nossa
existência e com quem repartimos dores e alegrias, compromissos e deveres.
A amparar e iluminar aquelas que foram confiadas como filhas, ofertando-lhes o
carinho e a orientação que necessitam para se tornarem dignas do compromisso que
assumiram ao receberem um corpo de mulher.
Ajuda-nos a aprender a amar e respeitar a todas as mulheres como companheiras em
evolução, sem jamais usar a força ou falsos direitos para subjugá-las aos nossos
caprichos ou violentá-las em seus ideais.
Fortalece-nos para que nossas mãos se entrelacem no afeto que une e eleva as
almas.
Rogo-te, ainda, ilumine a todas as mulheres para que se conscientizem da sublime
missão que lhes foi outorgada por Deus e não fujam ao dever da maternidade
quando sentirem dentro de si, palpitar, a vida de um pequenino ser, ansioso por um
pensamento de amor daquela que um dia chamarão docemente: ”Mamãe!”
Maria! Luz de nossa vida!
Volve teus olhos amorosos sobre nós e
cobre-nos com teu manto protetor para que nos tornemos dignos do teu
amor. Estende tuas mãos e guia-nos pelos caminhos da vida como filhos carentes
sempre que te saudarmos com a prece que te glorificou:
Ave Maria! Cheia de graça
O Senhor é convosco,
Bendito é o fruto do vosso ventre
Jesus.
Sonho de liberdade
Após a prece, doce paz invadiu-me a alma como se mãos carinhosas
tirassem de dentro de mim qualquer vestígio do passado culposo. O sol rompeu
derramando sua luz sobre os campos onde os velhos lavradores, curvados sobre a
terra, começavam sua lida diária.
Para eles, quase nada mudara durante os séculos decorridos.Seus
pensamentos eram o mesmo de meus ancestrais.O amor a terra, a preocupação com a
colheita, a incerteza do tempo.
Aproximando-me dos mais jovens, tentei auscultar-lhes o pensamento e
senti o quanto foram atingidos pelas mudanças por que passava o país.
Desvencilhados dos velhos costumes que alimentaram seus pais,
tentavam vencer as barreiras que os oprimia.
Uma palavra vibrava em suas mentes e eu podia vê-la a reluzir em
seus olhos. Palavra que rompe grilhões, incentiva lutas e se mantém viva nos
corações de todos os povos oprimidos. Eu a via como uma chama gravada em letras
de fogo: ”Liberdade! Liberdade!”.
Quanto sangue ainda seria derramado pela ânsia de sua conquista?
Quantos jovens tombarão com os corpos estraçalhados no afã de
desfraldá-la sob os céus?
Quantos homens
serão arrancados do pedestal que o orgulho, a
vaidade e a ambição o colocaram para que ela possa reinar sobre a Terra?
Quantos tiranos terão que deixar de existir para que ela se torne
uma chama brilhando entre todos os povos?
Quanto conhecimento teremos que adquirir, quanta renovação ela nos
exigirá para que a tenhamos em nosso coração?
Mas era hora de seguir adiante, pois uma nova luta pela liberdade
estava preste a se iniciar. Fitei mais uma vez os velhos lavradores e vi o medo
de que a luta chegasse até eles quebrando-lhes o sossego, perturbando-lhes o
trabalho, interferindo em suas vidas.
No olhar dos jovens, porém, eu via o desejo de trocar a ferramenta
do trabalho pelas armas para lutar por seus ideais.
Diante de mim se travava
uma verdadeira guerra de pensamentos entre a
ponderação, a serenidade dos velhos contra a exaltação e a agressividade dos
jovens.Como seria bom se essas forças se unissem para que o equilíbrio e
a moderação pudessem existir evitando tantas lagrimas.
Assim deixei o campo e segui para a grande cidade a tempo de
presenciar a cena brutal que ali se desenrolava.
Na grande praça, um pesado tanque, com suas rajadas mortíferas,
varava cruelmente o corpo de dezenas de jovens que lutavam pela liberdade.Vi,
comovido, como agia a misericórdia divina. Diversos Espíritos da seara do Cristo
socorriam os agonizantes. Juntei-me a eles procurando amparar aqueles que iam
sendo desligados do corpo físico.
Enquanto os aconchegava junto ao peito, elevava meu pensamento numa
suplica ao Senhor dos Mundos:“Senhor! Tu que és o poder e a misericórdia,
silencia o troar dos canhões para que possamos ouvir, o canto da liberdade, que
brota do coração dos jovens ansiosos por um novo porvir.
Ajuda-nos a suavizar o desespero das mães, que choram, abraçadas aos
corpos ensangüentados dos filhos que eram a esperança de suas vidas.
Ilumine os homens que projetam as mais modernas armas para que voltem suas
mentes para a descoberta de novos medicamentos que possam aliviar as dores,
curar as enfermidades que vão surgindo e que tanto sofrimento causam a
humanidade.
Acende a chama do amor nos corações para que a guerra seja banida da face da
Terra e a paz a transforme no paraíso que criaste para a evolução dos seres.”
Enquanto os canhões silenciavam
e a noticia do morticínio se
espalhava pelo mundo causando tristeza, revolta, protestos, os Obreiros do Senhor, se
afastavam levando os Espíritos dos jovens que acabavam de dar a vida pelo sonho
da liberdade.
Deixei a China com suas lutas e conflitos, mas um pedaço de mim
ficava junto com meus irmãos no desejo de que a luz do Cristo chegasse a seus
corações para que encontrassem a liberdade através da fraternidade e do amor.
Até um dia! Acenei tristemente do alto.
O Grande Deserto
Enquanto as muralhas
se apagavam de minha visão, o grande deserto surgia trazendo-me novas
lembranças.
A caravana caminhava lentamente sobre o sol abrasador.
A paisagem agreste se repetia sempre. Ali, natureza e homens se identificavam
como se eles tivessem sido moldados naquele ambiente. Seus corpos – matéria
bruta. Seus espíritos – consciência adormecida.Tal qual animais selvagens, viviam
do instinto, nutrindo-se de paixões violentas, sem culpas ou remorsos.
No
coração daquele mongol, que os guiava, no entanto, havia a intuição de um novo mundo. Sonhava
com grandes extensões de águas, muito além da imensidão do deserto. Montanhas
que pareciam tocar o infinito e campinas verdejantes onde corriam regatos
tranqüilos e onde poderiam repousar fitando o azul do céu. Durante muito tempo
ele guardou para si o seu sonho a se perguntar onde ficaria esse mundo? Que
direção tomar para alcança-lo?
Eles continuavam a caminhar. Viam o dia terminar, a noite chegar com seu manto
escuro e as estrelas que brilhavam no firmamento, era a única luz que os
iluminava.
Ele não imaginava, que para conquistar esse mundo, teria que lutar,
ferir, matar.
Como foi longa e penosa minha caminhada daquele deserto até o momento atual!
Quantas lutas eu tive que travar! Primeiro com aqueles que se antepunham em meu
caminho, depois comigo mesmo! Quantas muralhas se ergueram a minha frente e
quantas tive que derrubar! Primeiro elas eram de pedras, tijolos, cimento,
erguidas pelas mãos dos homens. Com o tempo elas se transformaram. Eu mesmo as
erguia dentro de mim com meu egoísmo, orgulho, vaidade e ambição, tornando-me
prisioneiro de mim mesmo.
Um dia, uma centelha de luz conseguiu romper as muralhas que eu erguera,
mostrando-me a verdade.Consegui ver minha pequenez. Conheci, então, a
humildade. Com ela consegui derrubar algumas
muralhas e conheci a renuncia – triste e bela –
que me ensinou o perdão – suave e refrescante como a gota de orvalho. Logo após
surgiu o amor – resplendente como o diamante – mostrando-me a caridade!
Foi tal a dimensão de sua luz que encontrei Jesus! Desde esse momento ergui a
bandeira da paz tentando despertar nos corações a solidariedade para que todos
tivessem direito ao alimento, a educação, a um pedaço de chão, a liberdade e o
respeito que todo ser humano merece.
Entre aqueles jovens que tombaram na Praça da Paz Celestial, se encontrava
alguns remanescentes daquela antiga caravana.
Continuavam lutando em busca de um mundo de liberdade, paz e amor.
Pedi a Jesus que me permitisse guiá-los novamente. Não mais na luta por um pedaço
de terra, mas na conquista de valores eternos.
Não mais derrubando muralhas de pedras que impediam nossa passagem, mas as
muralhas de nossas inferioridades que impedem nossa elevação. Será
uma longa estrada a percorrer, mas não estarão sozinhos, pois a mesma luz que
me guiou os guiará e poderão ouvir a doce voz que ecoará em seus corações
chamando-os para junto de si:
“ Vem! Não sejam recalcitrantes ao meu chamado. Só se tornarão livres quando
encontrarem a verdade.
Eu sou:
” O Caminho a Verdade e a Vida!”
Só eu possuo o balsamo capaz de cicatrizar as feridas causadas pelas injustiças
e as desigualdades.
Só eu possuo a força capaz de ajudar o homem a vencer a si mesmo e seguir o
caminho da redenção.
Vem! Vem comigo!
Eu sou o Pastor que os conduzirá pelos vales verdejantes para que o calor não
lhes abrase a alma.
Só eu possuo a luz para que não se percam na escuridão.
Eu sou a esperança que os incentivará na caminhada do porvir.
Eu sou o amor que perdoa e consola.
Vem comigo.
Eu Sou Jesus!”
