Sou Neuza Nóbrega Garcia
Nasci no dia 10/03/1926 em Dorândia - RJ
Através de "Minhas Memórias" vocês ficarão me conhecendo melhor.
Desejo que gostem...


Setembro de 2006

Recordações
Recordo a minha infância / O meu tempo de menina,
Doce tempo de inocência, / Minha aldeia pequenina.
O velho colégio, o chafariz, / Os folguedos, a amarelinha.
O largo em frente á matriz, / Os brinquedos de cirandinha.
Sexta-feira santa, quanta emoção! / Íamos a igreja rezar,
Em silencio, com devoção, / O Senhor Morto beijar.
Maio, mês de alegria / De flores, canto, oração,
O doce mês de Maria, / A sua coroação.
Setembro era o mês esperado, / Sua festa uma tradição,///

O largo todo enfeitado / Para a grande comemoração.
Alvorada! Sinos a repicar! / Todos felizes acordavam,
Com a banda, dobrados, a tocar, / E foguetes a espocar!
A procissão, N. S. das Dores, / Tão bela em seu andor,
Toda enfeitada de flores / Carregada com amor.
Tempo de alegria, simplicidade, / Hoje para mim acabado...
Somente ficou a saudade / Da infância, do passado...

  Doces lembranças

  Lembranças! Como defini-las além do que nos diz o dicionário?
  O que elas representam para nós? Alegria, tristeza, saudade, sofrimento?
  Como juntar as lembranças que o vento dispersou pelo ar e foram levadas para longe? Trazer de volta aquelas, que permanecem presas no fundo de um poço de águas turvas?
Buscar as que as cinzas, acumuladas pelo correr dos anos, sepultaram?
Lembranças... Muitas ainda estão vivas em cada canto onde vivemos...
Elas vão e vem como as ondas do mar, quebrando mansamente sobre a areia da praia.
Nutrem nosso coração com a mesma doçura da fruta madura que saboreamos com prazer. Vivificam nossa alma com as lagrimas que brotam de nossos olhos, suaves como o orvalho da madrugada. Embalam-nos durante as noites em que a solidão nos envolve, trazendo de volta pessoas queridas que se foram, mas continuam ligadas ao nosso coração, pelos laços do amor.
Lembranças que nos fazem reviver o passado, tornando-o presente para que tenhamos forças para construir o futuro.
  Estou parada no meio de uma estrada. Olho para trás tentando rever pessoas que fizeram parte de minha vida, os lugares onde vivi, a minha infância e juventude, a casa onde nasci e dei meus primeiros passos.
Sei que elas estão em algum trecho da estrada, mas eu não posso voltar no tempo, pois ele passou enquanto eu caminhava, e só poderei revê-las através de minhas lembranças.
Terei que reunir aquelas que o vento dispersou pelo ar e representam a minha existência.Mergulhar no fundo do poço e retirar do lodo, as lembranças amargas que tentei afogar. Revolver as cinzas para desenterrar as que marcaram momentos felizes ou tristes de minha vida.
 Fecharei meus olhos e esperarei, até que elas me levem ao começo da estrada, ao lugar onde dei o primeiro vagido.Sentir os braços carinhosos que me acolheram, os seios maternos que me alimentaram e o amor que me sustentou e me ajudou a crescer na vida...


Eu aos meus cinco anos de idade

Infância

  Voltar ao passado é caminhar lentamente, passos vacilantes por entre neblinas, tentando recolher lembranças perdidas. Pouco a pouco eu vou recolhendo as que se espalharam pelo ar. Elas se compõem de fragmentos de minha infância.
  Até onde elas me levarão?
  Os meus primeiros anos de vida, ao que me lembro, eu passei, a maior parte, sentada numa cadeira alta de madeira, fechada dos lados, junto a grande mesa da cozinha, a chupar o meu inseparável bico de mamadeira.
  Adorava minha mãe e queria estar sempre perto dela.
  Nunca tivemos brinquedos. A única boneca que possui foi uma pequenina de pano, que não sei por que, eu chamava de Nelza. A outra eu ganhei de premio no colégio, como a primeira aluna da classe, já aos dez anos de idade, da inesquecível professora Julia Timótheo da Costa.
 Isso, porém, jamais se constituiu em tristeza para nós, pois tínhamos o "nosso mundo encantado". Muito espaço, árvores e liberdade. Os acontecimentos mais insignificantes eram momentos festivos para nossas almas ingênuas.
A simples visita á casa de D. Emilia e Sr. Didi, distante apenas três ou quatro quilômetros de nossa casa, era motivo de expectativa e alegria.
As idas, raras, no sitio da Saudade, de tia Maricota, era pura emoção.Caminhar á noite pelas estradas desertas, iluminadas apenas pelas estrelas que brilhavam no céu, ver o pisca, pisca, dos pirilampos por entre as árvores. O barulho de um pequeno animal ao quebrar algum galho seco ou de uma ave voando, transformavam nosso passeio numa verdadeira aventura.
   As serestas que meu pai fazia, acompanhado de meus irmãos, o primo Paulo e amigos!
Com seus violões, cavaquinho, bandolim e flauta, nos embalavam com as lindas valsas,
chorinhos e modinhas.
  Quando Sr. Alfredo Porto nos levava á sua casa, que felicidade! Brincar no ribeirão que passava nos fundos de seu quintal, ver os cravos e cravinas que D. Leonidia cultivava em seu jardim!   
   Fecho os olhos e tento reviver tudo novamente, mas o tempo passou, deixando apenas a saudade de um tempo que o progresso matou...

Dorândia- RJ., minha Terra Natal, no meu tempo de criança, e o casarão onde nasci.

Travessuras

Como as ondas do mar quebrando na areia da praia, as lembranças vão e vem, trazendo de volta o passado.
  Eu não podia acompanhar minha irmã Ruth em seus folguedos. Mais velha que eu quatro anos, sua distração predileta era subir nas árvores mais altas de nosso quintal ou brincar de pique, com as amigas.Quando tentava acompanhá-las, geralmente eu caia, esfolando meus joelhos e até mesmo perdendo os sentidos. Assim elas me colocavam sentada num canto e continuavam brincando. Foi dessa irmã, que ganhei meu primeiro presente: um caderno de desenho e lápis de cor, que ela comprou com o pouco dinheiro recebido de aulas que dava para algumas crianças.
  Morávamos num grande sobrado na parte alta da vila, no largo arborizado, ao lado da igreja. Nosso quintal se estendia até a parte baixa onde ficava nosso laranjal: laranja coco, pêra, baia, seleta e lima – as mais doces de todas que já provei. Entre as laranjeiras, papai fizera umas valetas estreitas onde a água da chuva se acumulava.
  Não me recordo o que aconteceu aquele dia em que fomos brincar no quintal, mas me lembro do pito que minha irmã Ruth levou de nossa mãe quando chegou lá em cima, comigo toda molhada. Presumo que ela em mais uma de suas travessuras, foi pular as valetas comigo no colo deixando-me cair.
  De outra vez fui brincar na casa de minha amiga Odete Cardoso. Um casarão comprido que ficava na parte baixa, logo na entrada da vila. Atravessando a rua, havia um grande pasto com um pequeno poço, feito de pedras, onde D. Julia lavava sua roupa. Enquanto ela as estendia no varal, eu e Odete, nos debruçamos sobre o poço para tentar pegar pequenos sapinhos na água. Lembro-me, que despertei com a roupa de minha amiga, deitada em sua cama.
Como caí no poço e como fui retirada, ainda hoje, me é desconhecido.


Meu primo Cícero -26/10/1921 - 17/11/1935

Fragmentos

Por mais que busque, só consigo recolher minhas lembranças em pequenos fragmentos. É como um livro que não lemos o começo nem o fim, apenas trechos esparsos, abertos ao acaso.
Não sei dizer como, nem quando, tia Mindoca veio de São Paulo trazendo o Cícero e a Nazira. Para mim é como se eles tivessem estado sempre ao nosso lado, como partes de nossa vida.
Parece-me ainda, ouvir os gritos da tia, preocupada, a chamar pelo Cícero quando ele se juntava aos outros meninos para jogar bola.
Recordo-me, no entanto, quando tia Didi chegou para buscá-lo, assim como da prima Lucí. (Fiquei encantada com seus cabelos, seu porte, sua beleza).
Será que chorei na despedida? Senti a falta do querido companheiro?
Por mais que me esforce, há um branco em minha memória. Devo ter enterrado aquele momento no lugar mais fundo do poço, junto às outras lembranças que me fizeram sofrer...
 


O largo, e meu irmão Mauricio na bicicleta.

A inauguração da luz

Creio que o maior acontecimento realizado em nossa terra, foi à inauguração da luz elétrica, pelo prefeito de Barra do Pirai, Dr. Arthur Costa, amigo e correligionário político de meu pai.
Mesmo vivendo "entre nuvens", tomei conhecimento dos preparativos que ocorriam lá em casa. A colocação de fios, tomada e interruptores nas paredes e a grande animação que via em todos.
  Infelizmente não me recordo dos festejos do grande dia, (devia estar mais preocupada em chupar meu velho bico – eu o chupei até a primeira serie do colégio), do que com os acontecimentos que empolgava a todos. Somente me recordo do um grande jantar que houve lá em casa e, não sei se papai ou mamãe, apertando um botão e a luz iluminando toda a sala.
  Os lampiões e as lamparinas foram recolhidos. Por muito tempo brilharam nos iluminando. Foram partes, importantes, em nossa vida, mas a partir daquele momento, como acontece com tudo que perde a utilidade, jogados num canto e esquecidos...

A imagem de N.S. das Dores com minha mãe e o sr. Aleixo.

Mês de Maria

   Nossa vida estava sempre ligada as festividades da igreja.
  O mês de Maio, consagrado á Maria, era um dos mais festejados, e que mais nos emocionava. Para nós, crianças, ele era especial.
  Com sua aproximação nossa expectativa crescia ante a pergunta que fazíamos: "Quem será escolhida esse ano para coroar Nossa Senhora?..."Eu, geralmente, era a privilegiada. Talvez, por meus cabelos cacheados, me achassem a mais parecida com os "anjinhos" que criamos em nossa imaginação. Todas as noites, a ladainha, composta do terço e dos cânticos, era rezada pelos fieis. Logo após a mesma, era iniciado os ensaios. As musicas que seriam cantadas e a coroação, em si. As meninas eram colocadas nos degraus do altar onde ficava Nossa Senhora. A que ficava no degrau mais alto, segurava a coroa e a ia passando de mão em mão até chegar as minhas mãos, quando então, eu a colocava sobre a cabeça da santa.
No último domingo do mês, havia, finalmente, a tão esperada coroação com o encerramento do mês de Maria. O altar todo forrado de fazenda azul e véu branco com estrelas de purpurina, salpicadas, para imitar o céu. As luzes da igreja eram apagadas e um holofote era projetado sobre o altar. A pesada cortina se abria e lá estávamos nós, vestidas de anjo, "num verdadeiro céu".
 Os cânticos eram iniciados e logo após a coroação, enquanto a musica do encerramento repetia: adeus, adeus, adeus, a cortina era fechada sobre nós sob uma chuva de pétalas de rosas. Emocionadas, conscientes da responsabilidade que nos pesava diante "do grande publico que nos assistia", (a igreja ficava lotada), aguardávamos, junto com as organizadoras, compostas por minha irmã Ruth, a prima Odete, Lucinda, Anita, Regina e outras moças, o veredicto.
Com os comentários sempre de elogios, encerrava-se, a grande noite que a todos comovera.


Eu a esquerda, e minha irmã Ruth, num carnaval.

A Festa Tradicional

   No mês de Setembro era realizada a festa em homenagem a nossa padroeira. Um mês antes, já começava a preparação. Mandar fazer os programas em Barra do Pirai, que seriam depois distribuídos e enviados pelo correio para os antigos moradores ou parentes distantes. A escolha e a contratação da banda de musica que viria abrilhantar os festejos, a lista para as festeiras e a distribuição dos cartões para as crianças – por um níquel, o cartão era furado com um alfinete.(A nossa ansiedade era grande para ver quem primeiro encheria o seu).Um armador de Barra do Pirai, era contratado para ornamentar a igreja, enquanto nós, as crianças, ajudavam as moças a cortar as bandeirinhas que seriam colocadas na praça.
  Finalmente o grande dia chegava. Passávamos todo o dia do sábado, ansiosas, aguardando a noite, quando a banda de musica chegava. Domingo de madrugada, os foguetes anunciavam a alvorada e corríamos para as janelas para ver a banda a desfilar pela vila. Logo após, começava a nossa preparação para a missa das dez, quando vaidosas, nos exibíamos com nossos vestidos novos. A tarde a procissão, a reza na igreja e a noite o leilão. A festa se encerrava com a queima de fogos ao som dos mais lindos dobrados. Com os olhos cheios de lagrimas, nos dizíamos tristemente: Agora só no ano que vem...
   Esse "ano que vem" nos parecia uma eternidade, pois como o tempo demorava a passar!


Meu pai ao lado de meu irmão caçula, Amauri.

                                             A Morte de Meu Pai

   Meu pai nunca se deixou cegar pelo orgulho por ser neto do Barão do Engenho Novo ou pela tradição da família Nóbrega. Deixou-nos de herança o exemplo de simplicidade, humildade e amor com que cuidava do seu laranjal e da venda de onde tirava o sustento da família.
  Eu havia completado oito anos quando ele faleceu.  Houve dois fatos relativos a sua morte que jamais esqueci.
Eu dormia ao lado da cama de meus pais e aquela manhã acordei com minha mãe aflita, a chamá-lo. Ele estava adoentado e ela havia descido para buscar-lhe o café,
quando voltou, o encontrou morto.
  Aquela cena ficou gravada, creio que para sempre, em minha mente.
  A outra foi á noite, no salão, quando todos velavam seu corpo e chegou um primo nosso,
do Rio, procurador da família de meu pai.
Com gestos teatrais, junto ao caixão, fez um juramento a minha mãe que
lhe pagaria o que a família lhe devia. Juramento esse, que jamais cumpriu.
 São as únicas lembranças que guardo desse dia. Não tinha nenhuma noção sobre a morte,
 ficando apenas aturdida com a casa cheia de parentes e amigos que chegavam á toda hora.
A partir daí, as lembranças são muito vagas, pois não sei como encarei a sua ausência.
Lembro, apenas, da preocupação de minha mãe, dos dois tios, seus irmãos, que vieram
de São Paulo e que a ajudaram financeiramente, e da vida dura e
de sacrifício que passamos a viver.
  Não guardo, também, nenhuma recordação do casamento de meus irmãos mais velhos: Jandira, Toninho e Armando, nem de minha avó Umbelina, nem de sua morte, nem de meus avós paternos, mas me lembro do silêncio e apreensão que havia na casa durante o dia que meu irmão caçula, Amauri, nasceu. Eu tinha então, seis anos de idade e a vovó morreu pouco depois.
  Creio, que embora eu não continuasse mais sentada na cadeira alta ao lado da mesa da cozinha chupando o meu bico de mamadeira, não tinha noção do que acontecia ao meu redor e de que o tempo passava e eu não vivia...


A casa, restaurada, de meu avô paterno.

A Casa Mal Assombrada

  Bem perto de nossa casa, ficava o velho casarão abandonado, que fora a residência de
meus avós paternos.  Ele nos atraia e assustava, pois diziam que era mal assombrado.
 Curiosas, sempre em grupo, nos aproximávamos e ficávamos a espreitar pelas gretas das portas
 e janelas, tentando ver o que havia lá dentro. Algumas vezes, jurávamos ouvir passos e
barulho e amedrontadas, saiamos a correr, julgando ser os fantasmas que diziam habitá-la.
  Quando  já mocinha, ele se tornou a residência de D. Julia Cardoso, e todas as noites, eu, Odete,Oswaldo e meu primo Gegê,  sentávamos na calçada e ficávamos horas a conversar
 até o momento que meu irmão Armando fechava a venda, e eu ia embora para casa.

Anos mais tarde, ele ficou para um dos herdeiros da família Nóbrega, a prima Estela, que veio do Rio, passando a residir no mesmo, com suas filhas Wanda e Dalva
Os fantasmas desapareceram para sempre...

A Família Almeida  

Sempre quieta pelos cantos da casa a chupar meu velho bico, mesmo sem querer, eu ouvia a conversa dos adultos, e algumas ficaram guardadas no meu sub-consciente, principalmente aquelas que se referiam aos tios que haviam seguido para São Paulo.
  A tia Albertina era sempre lembrada com carinho, pois nos enviava roupas e as vezes nos visitava. Lembro da expectativa que antecedia sua visita. Vinha de trem até Vargem Alegre
onde tomava um carro de aluguel para Dorândia.

  Os comentários sobre o tio Quincote,
que estava bem de vida,
 e de sua
amizade com o Ademar de Barros.

  Tia Maricota, os tios Serafim, Chiquinho e Domingos, cujo filho, Benedito, afilhado de mamãe, morava em Santos. (Jamais eu iria imaginar, que um dia, seu filho Luiz Carlos, com o trabalho que fez sobre a família Almeida, se tornasse meu amigo).

   Tio Avelino e mamãe, e depois tia Mindoca, permaneceram em Dorândia, por isso,
nós, seus filhos, não tivemos chance de estudar como os primos de São Paulo.

  Talvez a própria vida tivesse que nos ensinar, mas creio, que o nosso torrão natal nos deu preciosas lições, que muito nos ajudaram na vida.
Hoje, junto à saudade, em meu coração está a gratidão, pois nele aprendi a importância
da humildade, da paz, do amor e da amizade!


 Eu, aos nove anos de idade, ao lado de minha mãe

Doces Momentos

  As lembranças que tem a doçura das frutas maduras, jamais esquecemos.
  Em meu coração ficou gravado o gesto carinhoso de meu pai quando afagava meus cabelos cacheados me chamando de "minha dondoca"ou quando me sentava no balcão da venda e eu ficava durante horas a observá-lo a atender os fregueses humildes que chegavam.
   Nossa ida á Barra do Piraí, num dia 10 de Março, aniversário da cidade e meu,  meu pai nos levou a uma confeitaria famosa no lugar, onde comi , pela primeira vez, as empadinhas mais deliciosas de minha vida!
  O aniversário da prima Wanda quando a Estela serviu um manjar branco na forma de um leão sentado com um pedacinho de goiabada na boca imitando a língua.Os doces de leite que comprávamos na venda do Sr. Aleixo, feitos por D. Julia.
  A expectativa que antecedia o aniversário de papai – creio que o único festejado em nossa casa. Mamãe se esmerava na fabricação dos doces: os figos, em grande quantidade, eram descascados, aferventados e colocados numa calda rala num caldeirão, fervendo durante três dias até a calda engrossar. Eram então levados á uma peneira para escorrer, passados no açúcar cristal e colocados em bandejas sobre as janelas para secarem ao sol.
O doce de coco dourado pelas gemas na compoteira branca de cristal.
Os papos de anjo com um cravo no centro.
  Os almoços de domingo, o único dia que comíamos carne de vaca, pois era quando Sr. Didi as matava em seu sitio. Os bifes eram servidos numa grande travessa, acompanhados de pastel ou batata frita.
  O pirão de galinha que a prima Isaura, quando teve o Nely, me serviu. 
(Até hoje adoro pirão, mas nenhum jamais teve o mesmo sabor daquele!)
   Ah! Doces lembranças! Doces tempos, pois ainda desconhecíamos o amargor da vida, do sofrimento que um dia chega na vida de todos...



Minha irmã Ruth, Jandira, eu, Amaury e Toninho

Nossas  Distrações 

Num tempo em que não havia radio, (televisão, então, nem pensar!) o futebol era a distração predileta da maioria dos habitantes de nossa vila. Os times vinham de Vargem Alegre, São José do Turvo, Pinheiral e, às vezes, os da segunda categoria de Barra do Pirai.Outras vezes, íamos com nosso time, retribuir a visita. A condução era sempre o velho caminhão do Chico Vieira. Tábuas eram colocadas atravessadas na carroceria, onde nos sentávamos, e assim íamos pelas estradas afora. Às vezes surgia uma briga entre os jogadores e a torcida acabava entrando, mas quase sempre não passava de alguns murros e tombos.
 
E
m minhas lembranças, há um acontecimento que poderia dizer que foi uma verdadeira aventura: Um pic-nic, ao Monumento da Serra das Araras, RJ. Dessa vez, creio que fomos no caminhão do tio Avelino.Embora bem pequena, marcou-me uma cena: a Pequenina, (uma de três irmãs, muito amigas de minha mãe), formou um verdadeiro reboliço ao tentar subir a escada interna – estreita e íngreme – que levava ao alto do monumento. Embora não me recorde se ela conseguiu subir ou não, nossa aventura terminou bem e voltamos todos
ilesos para casa.

     Velhos tempos! Velhas estórias! Hoje vemos as
estradas percorridas vazias, povoadas apenas pelas sombras daqueles que partiram, deixando a saudade em nossos corações e lembranças que o tempo não apagou...


        Paquetá e Jardim do Méier
             Eu e Ruth com a prima Wanda

 O Radio

Não sei dizer quantos anos tinha quando mamãe comprou nosso primeiro radio. ( Ele foi o primeiro da Vila). Só sei que meu irmão Armando ainda era solteiro, pois ele foi colocado numa mesinha redonda no salão grande, que ficava na ala direita da casa, que foi dividida após o casamento de meu irmão, ficando essa parte da casa para ele.Ele passou a ser o nosso companheiro.
As noites, eu, Ruth e mamãe sentávamos as suas volta e ficávamos até altas horas a mudar de estação nos ligando a um mundo que desconhecíamos.
  Parece-me que ainda ouvir o prefixo do programa que havia aos domingos na radio Nacional: “Quando os ponteiros do relógio se encontrarem, vocês se encontrarão com o rei da voz” e nos lá estávamos, firmes, para o encontro com o Francisco Alves, com seu vozeirão, a encher nossos ouvidos com a melodia “Eu tenho um companheiro inseparável, na voz do meu plangente violão!” E prosseguia com as mais lindas melodias: “Não queiras meu amor saber da magoa / que sinto quando a relembrar-te estou / atestam-te meus olhos rasos d´água / a dor que a tua ausência me causou”...
  Dividíamos-nos entre os cantores. Mamãe gostava do Albenzio Perrone, Ruth da Araci de Almeida e a minha predileta era a Alzirinha Camargo. Ainda me recordo de uma melodia que ela cantava com muito sentimento: “Trem que parte, alguém que fica chorando / Trem que chega, alguém chorando ficou / Trem que parte uma saudade levando / Trem que chega uma saudade deixou”. Entre os cantores eu adorava o Carlos Galhardo com sua voz de veludo e suas lindas melodias: Fascinação, Perfume de mulher bonita, Cerejeira rosa, Cortina de veludo e o inesquecível Destino desfolhou:
“O nosso amor traduzia, felicidade afeição / Suprema gloria que um dia / Tive ao alcance da mão / Mas veio um dia o ciúme / E nosso amor se acabou / Deixando em tudo o perfume / Da saudade que ficou...”.
  Houve uma copa do mundo em que nosso salão se encheu de torcida. Infelizmente no último jogo o Brasil perdeu para a Itália, creio que de 1x 0. Nessa partida o Leônidas brilhou surgindo o “Diamante negro”,
como passou a ser chamado desde então.

     Esse radio ficou conosco até meu casamento, sendo, (coitado do nosso companheiro) destruído por cupins...
 

           
A igreja no meu tempo de criança.    Ao lado de Francisco

F
iguras típicas

  Hoje ao lembrar as figuras mais diversas, que viveram em nossa Vila, muitas perguntas
me vem a mente: Como eles sobreviviam?Tiveram  família?
Alguém que lhes cerrou os olhos na hora da morte?
   De onde vinham e para onde iam, foi a pergunta que naquela época, jamais passou por
 minha cabeça. Para mim eles apenas surgiam  do nada, e deixavam de existir ao dobrar a primeira esquina. A venda era o local preferido deles, atraídos pelo cálice de aguardente,
que sorviam de uma só vez.
  A figura mais marcante entre todas, era a do Turíbio. Escuro, pequeno e franzino, rosto marcado,
tinha a mão direita deformada, com os dedos virados e fechados.
Creio que para nos educar pelo temor, os mais velhos nos diziam que sua mão ficara assim
por ele ter batido na mãe, quando criança. Nós acreditávamos piamente e o olhávamos com curiosidade e temor. Passava grande parte do dia sentado num banco num canto da venda,
a rir, falando sozinho, coisas inteligíveis.
 Sempre antes de se retirar, pedia "um gole", que papai lhe dava.
  Houve uma tarde que meu pai se afastara por momentos, e nós, crianças, ficamos tomando conta da venda. Ele estava no seu canto, como sempre a resmungar, quando repentinamente,
se levantou exaltado, passando a mão num peso, que papai colocava para prender os papeis de embrulho que ficavam sobre o balcão, rodopiou com ele pelo ar, ameaçando arremessá-lo. Assustadas, nos abaixamos, enquanto ele voltava calmamente para o seu lugar.
    Hoje, consciente das vidas passadas, eu imagino as dolorosas lembranças que o assaltavam e que o levara a um momento de agressão a alguém que não víamos, mas, que certamente,
deveria estar escondido no seu sub-consciente...
   A tia Eva, como todos a chamavam, também de cor, franzina, sempre suja, cheirando mal
pela falta de higiene, aparecia vez por outra. Ficava algum tempo pelos cantos da venda
a resmungar e depois de um gole, desaparecia na estrada.
   O Dionísio era um preto forte e ainda relativamente moço. Vivia de casa em casa onde comia e dormia. Algumas vezes desaparecia por algum tempo e chegava elogiando as outras vilas onde estivera e falando mal da nossa. Ajudava com pequenos serviços e a lavar a igreja. Era quase parte de nossas famílias, pois entrava e saia de nossas casas livremente.
    O Joaquim amarelo,era branco, magro e muito pálido, amarelo mesmo, talvez por isso o apelido que lhe deram. Diziam que ele era assim porque virava lobisomem.
Nós o olhávamos desconfiadas e temerosas, pois jamais duvidamos do que diziam.
Quando em alguma sexta-feira, noite alta, ouvíamos algum barulho no quintal ou o
cacarejar de alguma galinha, assustadas, nos encolhíamos no leito imaginando ser ele.
Vinha semanalmente a venda fazer compras e as levava num saco, as costas.
Sempre desconfiado, entrava e saía em silêncio.
    O Sebastião Gato, muito alto, magro,  era ágil como um gato, por isso o apelido.
    Somente sei, que foram tipos inesquecíveis, e hoje, pesarosa, vejo que nada sei realmente
sobre eles. Apenas, que por um tempo limitado, fizeram parte de nossas vidas...
Cruzaram nosso caminho... A causa eu não sei...

                                                          Otavio Caldas

O Otavio Caldas foi uma exceção. Criado pela família de meu pai, e seu afilhado, o respeitava muito, e após sua morte se julgava com direito de nos vigiar. Meu sobrinho, Carlos Cid, o chama de dedo duro, pois ia contar para mamãe sobre os seus jogos de bola. Tinha mania de comprar bilhete de loteria, escrevendo o numero na parede da cozinha lá de casa dizendo que seria premiado e nos ajudaria - coisa que nunca aconteceu.  Era o leiloeiro, famoso, das festas de Setembro e morava numa pequena casa na entrada da Vila.

            
Nossa ex casa em 1990
  

Lugares

  As lembranças nos provam que o passado não morreu.
  Vemos a infância, a juventude e a vida passando, e nos conduzindo a outras paragens, a novos conhecimentos...Vargem Alegre onde minha irmã Jandira passou a residir. As idas com Nilda e Ondina á estação de trem para vê-los passar...Os
bailes no Hotel do José Hilário...As conversas na calçada na frente da casa...
  Barra do Pirai, cidade que tanto amei e onde tive meu primeiro amor...
  Rio de Janeiro, a casa da prima Estela em Todos os Santos...Eu, Ruth e Wanda, os passeios no Méier, as matinês no Cine Para Todos...Os domingos na Quinta da Boa Vista...
  A mudança de nosso irmão Toninho para o Rio e as idas com a Esther nos teatros de Revista, Corcovado, Paquetá, festa da Penha...
  O casamento da Ruth e sua ida também para o Rio...
  Meu casamento com Francisco, a ida para Volta Redonda, onde meu filho Fernando nasceu e onde tive grandes amigos... Finalmente a cidade de Cruzeiro onde espero cerrar meus olhos para essa vida para iniciar a verdadeira vida na Pátria Espiritual...
 

             
              
A igreja, atualmente.

Renovação

  Hoje olhando o passado, creio que apenas meu corpo estava preso a Terra, pois meu espírito se achava distante. A prova é que adorava me isolar no sobrado para contemplar os morros que tanto amava e que me faziam sonhar, ou ler e copiar poesias.
  Logo após a morte do Francisco, num dia de minhas vibrações pelos enfermos, senti a aproximação de um Espírito, que me envolveu com os mais suaves fluidos. Emocionada procurei captar o que ele tentava me transmitir. Suas palavras, carinhosas, expressavam o grande amor de uma alma superior que me conhecia profundamente: "Eras apenas uma criança e já te ligavas ao céu como se soubesses que era de lá que vinha a esperança para os homens... do céu vinha
a voz que te falava quando te isolavas para fugir da terra que teus pés pisavam, mas
que não te prendiam, pois sabias que nela
estava o sofrimento e que ela jamais
te daria a felicidade que sonhavas..."
  Não sei quem ele era nem o que foi em minha vida, pois não quis se identificar,
mas senti que conhecia minha alma como nem eu mesmo conheço...
  Fez-me um grande bem e o lembro sempre com gratidão e amor.
  A minha transformação se deu quando conheci, já no poente da vida, a Doutrina dos Espíritos. Despertei... Tornei-me comunicativa, passei a olhar ao meu redor, a ver as pessoas,
pensar em seus problemas e sofrimento.
Hoje procuro aprender a amar meu próximo como o Senhor nos ensinou e repito sempre:
"Bendita doutrina capaz de transformar o ser humano, de renovar uma alma para Deus!"

  Não fui apenas eu, que me renovei, pois afinal a finalidade da vida é a renovação.
A minha pequena Vila também mudou.
Cresceu. Novas casas, pessoas estranhas vindo de fora em busca de tranqüilidade, paz.
Quase nada mais nos lembra o passado.
  O sobrado da ladeira de nosso avô José - onde teve inicio a minha história, pois vindo de Portugal com a vovó Umbelina, ali fixaram residência e ali nasceu minha mãe,
 - Judith, a caçula de uma grande família: A família Almeida,
 há muito se desmoronou, assim como nossa velha escola.
Da padaria, que ficou para meu tio Avelino, apenas a parte externa continua de pé, como um esqueleto, a falar sobre o passado.
O casarão do Sr. Didi um incêndio destruiu.
No local onde se erguia à casa do Sr. Alfredo Porto uma nova casa foi erguida.
Apenas o sobrado onde vivemos, agora todo dividido, a casa de meu avô paterno,
 e a igreja, continuam de pé, como um rochedo que resiste as agressões do mar.
  Um domingo á tarde,  fui com Francisco a Dorândia, e sentada num banco
ao lado da igreja, fitando o casarão que foi de meus pais, tomada de nostalgia,
escrevi uns versos com os quais encerro minhas lembranças da infância.

Meu mundo perdido
Quando envelhecemos / Como doe a saudade,
Dos entes que já perdemos / E da nossa mocidade.
O passado nos vem a mente / Com sua doce lembrança,
Como seria triste o presente / Se não houvesse a esperança.
De meu pai, que tão cedo nos deixou / Ficou  a doce recordação,
Chama que não se apagou / De dentro do meu coração.
Os irmãos, um a um partindo, / A vida nos separando...
Cada um seu caminho seguindo, / Aos poucos nos afastando.
Minha mãe morta, o casarão vendido / No peito o coração a sangrar,
Meu antigo mundo perdido, / Nunca mais o irei encontrar.

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