Na Seara do Mestre
Ele é o Divino Pastor
Do alto a nos guiar
Nos tornando seu instrumento
Para as almas ajudar.
 

  
   

Não Julgueis...

         O trabalho de desobsessão me fez compreender em sua profundidade, o significado das palavras de
Jesus, pois quando servimos de instrumento para um Espírito se comunicar, sua alma se desnuda para nós.
Partilhamos seus pensamentos, sentimos suas aflições, dores, amor e ódio.
 Seus dramas se transformam em preciosas lições para nossa renovação e devemos ser gratos a eles
pelo que nos ensinam com seus erros ou sofrimento.    
   Embora espírita, consciente da importância do perdão, não conseguia vencer o horror
que me causava os estupradores. 
Ao imaginar o sofrimento de suas vitimas, julgava pequena qualquer pena que lhes fosse imposta.
 Foi então, que a espiritualidade me escolheu para dar passividade á alguns deles.
Recordo-me bem, o caso de um Espírito que havia, quando encarnado, violentado e estrangulado um menino.
 Quando o doutrinador lhe perguntou se não lhe pesava a consciência pelo que fizera, ele respondeu
serenamente, sem a menor noção do mal que tanto nos horrorizava:
“Eu não sei porque faço isso, é uma coisa que me dá e não consigo controlar..."
E a nova pergunta: por que você o matou?
– Porque ele chorava e começou a gritar...”
            Foi então que compreendi, realmente, as palavras de Jesus ao pedir perdão ao Pai por seus algozes:
“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem...”.

A tomada 

                       
          Por inúmeras vezes, no desligamento do espírito durante o sono, nos adentrávamos por áreas agrestes
na busca de Espíritos sofredores, alguns em formas animalescas, escondidos em furnas,
arbustos ou espinheiros, tentando fugir á voz da consciência que os acusava dos crimes praticados.
Através da misericórdia divina, os recebíamos em nossas reuniões e tivemos  a alegria de vê-los
voltarem novamente a forma humana.
Suicidas que nos comoveram  e amparamos, amenizando-lhes o sofrimento.
          Espíritos cruéis e vingativos foram abrandados.
Jovens inconformados por deixarem o corpo físico, conseguiram a aceitação.
Os inconscientes de que já haviam deixado o corpo físico,  foram esclarecidos.       
       Em meu coração persistirá sempre a gratidão a Deus por ter me proporcionado à chance de ser
a pequena tomada que serviu para que os Espíritos Iluminados levassem  luz a tantas almas.

 

                                                                                   O vale sombrio 

            Na madrugada do dia 28/07/1988, eu acordei em “estado de graça”.
 Presenciara uma das cenas mais emocionantes de meus desdobramentos.
            Acompanhada por vários médiuns, estivera num pequeno monte, de onde avistávamos,
  a nossos pés, um extenso vale, envolto por espessa neblina. Ao nosso lado, estava o
Dr. Bezerra de Menezes a nos orientar. Á proporção que falava, ele ia se iluminando tal qual uma estrela.
 Deslumbrados, víamos projetar de seu tórax, fachos de luz que partiam em direção ao vale, iluminando-o,
e nos deixando ver vultos disformes, deslizando por entre espinheiros, procurando se abrigar do forte
 vento que soprava. Suas palavras tocavam-nos o coração por expressar um amor que ainda
 não conhecíamos: “Eles lá estão! Vultos sombrios, deformados pelas vibrações malignas que emitem.
Em seus corações não existe qualquer sentimento de bondade ou amor.
 São sombras escuras se confundindo com a noite sem fim. Por isso são chamados filhos das trevas,
nós, porém, os chamamos de irmãos. Irmãos que sofrem o efeito do ódio e da revolta,
dos vícios e crimes que os transformaram no que hoje são.
Quem sabe ali se encontra alguém a quem amamos no passado e não conseguimos evitar que se perdesse?
 Quem sabe fomos nós que o conduzimos a esse estado e agora, poderemos fazer por ele, o que não
conseguimos quando esteve ao nosso lado?
Seja como for, é nosso dever ajudá-los, reconduzi-los a forma humana, despertá-los para Deus.
Mas para isso é preciso que haja amor em nossos corações, pois somente
através do amor conseguiremos salva-los.
Unamo-nos pelos laços sublimes da fraternidade.
Seremos, então, um só coração, uma só alma, trabalhando, pela mesma causa:
a libertação de nossos infelizes irmãos!
  Confiemos na misericórdia de Deus.
     Busquemos Jesus lembrando de suas palavras:

 ”Eu estarei convosco até a consumação dos séculos”.      
               

Muitos desses irmãos tivemos a alegria de receber em nossas reuniões procurando
colocar em pratica o amor que o querido Bem Feitor nos ensinara.

O Teste 

Em nosso trabalho algumas vezes somos testado por Espíritos inferiores
que nos seguem no intuito de ver se realmente praticamos o que apregoamos.
Certa noite dei passividade ao Espírito de um pai muito revoltado.
Seu filho tornara-se um andarilho.
Nos contara que  sofria muito ao vê-lo  mendigar um prato de comida e a indiferença com que era tratado.
 Revoltado pensava em induzi-lo, mentalmente,a se tornar um assaltante.
 O doutrinador procurou dissuadi-lo de tal idéia falando das pessoas que se dedicavam ao
socorro fraterno, inclusive nós, que ali estávamos que o receberíamos de boa vontade se ele um dia 
batesse a nossa porta. Durante a incorporação, a imagem do filho querido, viva em seu coração,
tornou-se nítida para mim. Impressionada com a figura exótica do jovem a gravei em minha memória.
Os dias da semana passaram e chegou o domingo.
Eu acabara de lavar a louça do almoço quando ouvi palmas embaixo de minha janela prenunciando
 um pedinte. Estava cansada, ansiosa para descansar e pensei em não atender,
mas a consciência, ou talvez o amor, levou-me até a janela para ver quem batia.
Foi grande minha surpresa ao fitar seu rosto.
 A pele cor de bugre, grossa e avermelhada, os olhos pequeninos e apertados, a barba e
 o bigode de pelos ralos e longos, o cabelo estranhamente claro naquele rosto escuro,
era formado por fileiras de tranças estreitas chegando até o ombro.
Á minha frente, estava o filho do Espírito que ajudáramos, a pedir-me comida.
Apressei-me em preparar-lhe um prato com frango e macarrão, dando graças a Deus por não
ter deixado de praticar aquilo que apregoamos – a caridade.

 


 

Música: Ernesto Cortazar -Over the Rainbow
 

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